quarta-feira, 5 de maio de 2010

Eu, luva

Na linha de produção enquanto estava sendo fabricada, ouvia os comentários:
– Essa nossa vida curta de agora é angustiante.
– É querida, sabemos que seremos descartadas e depois seremos recicladas.
– Antigamente nossos avós duravam tanto. Iam nas mãos de damas, camareiros, e a vida de luxo que tinham ? Heim !?
Pensava em qual seria meu destino. Se eu seria de grande importância.
Na caixa, agora pronta, as luvas apertadinhas reclamavam umas das outras. Eu nem escutava só pensava que queria ser mais que uma luva.
– Olha, viemos para o Hospital !
– Espero que não fiquemos no setor que tira sangue, pois é uma de nós a cada minuto.
Nossa caixa foi parar no Centro Cirúrgico. Quando chegamos, fomos mandadas às salas mais próximas. Na sala do Doutor Mauro que ficamos, ele logo nos colocou nas mãos e correu para a sala de Emergência.
Na sala havia uma criança chorando muito, e com a perna toda aberta. O Doutor me pegou, e com uma agulha, começou a costurar aquela criança, que já estava apagada. Disse à agulha:
– Estou cansada, mais não podemos desistir, agulha !
– Claro que não, olha, esse é o último ponto. Terminamos.
Eu percebi que minha vida não tinha ido em vão, naquele dia tinha acabado de perceber que havia salvado uma vida. E o que me surpreendeu, foi que o Doutor me limpou e me guardou em um vidro, que dizia: “ Parabéns pela sua 1° cirurgia, Mauro!”.
Todos os pacientes que lá entravam, me olhavam com muita felicidade e muito orgulho. O meu destino foi escrito nas mãos desse, que se tornou, um médico famoso.

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